Eu metera a rosa numa jarra com água, acreditava que assim a conservaria sempre bela e viva. Todos os dias a olhava e sorria, sorria sem sorrir, o simples, o verdadeiro sorriso de um olhar. Cada dia que passava a sua beleza era mais exaltada ao abrir do seu botão. Eu deixava-a repousar na segurança, no conforto de a ter ali. Porém, a água esquecida, abandonada à estagnação do tempo, tempo que se transforma na areia desértica dos pequenos e dos grandes aconteceres, desterrados de lar, amortecidos por repetições inalteradas; e as águas, agora estagnadas, de anjo da guarda a fantasma e assombração, do botão da perfeição imaginada, brotou o decair de uma realidade impossível todos os dias e todos os momentos em que respiro. A imagem dos teus olhos bonitos, descobertos, são a visão dos meus olhos cerrados, obsoletos.
Rasguei o botão enganoso; pétalas saltavam em todas as direcções: violência, histeria, o "crack" do gelo queimado. Nem sei se as pisei ou se me fui logo embora, deixando-as ao abandono do chão abandonado. Eu não queria, eu queria voltar, juntar as pétalas todas num botão ("no" botão). Eu queria correr, regressar ao verde daquela manhã, juntar as pétalas e beijar a flor que outrora me beijou.
Foi o agarrar com o abraço dos rios que correm sem olhar a nada e tudo nutrindo. Com o abraço que não se queda nos dedos, não se quebra nas mãos, o abraço que é também um riso triunfal sobre a limitação. Com olhares de amor puro fitei, excelente e certeiro, nos olhos directos, os demónios do tempo e da saudade, da revolta e da idade. Eu permaneci inalterado, e os diabos desfaziam-se agora em jardins edénicos. E foi o auge da loucura, da carne, do sangue. O apogeu do sonho numa dança de corpos mudos, gritantes. Oh guerra primitiva, massacre de toda uma vida! E as paredes caiem em tijolos dispersos, tudo se desmorona em ascensão divina. E rimos, rimos... Ruídos de ceara à brisa (que sobre nós cresce), bailarinos do azul celeste em despistes verticais. Volto a mim, volto... olhar parado sobre as televendas no televisor de imagem turva, sem saber à quanto tempo estou aqui, quanto tempo não vi passar, desde que te perdi...